PARE OLHE ESCUTE

ESCOSTEGUY Vida e obra

sábado, 20 de junio de 2009

ANTICONTO

Pedro Geraldo Escosteguy, em 1960, muda-se para o Rio de Janeiro onde publica, na revista O Cruzeiro, o que denomina “anticontos”, uma narrativa atípica que questiona os limites entre prosa e poesia. A releitura dos anticontos publicados e a recuperação dos textos inéditos de Pedro Geraldo Escosteguy, associada à análise dos manuscritos que evidenciam o processo pelo qual passaram esses textos nos seus diversos estágios de escritura[1], atestam que o autor inclinava-se ao cultivo da visualidade gráfica da palavra, da depuração da linguagem, da vinculação entre texto e formas plásticas, buscando integrar a palavra à imagem, num esforço criativo que o situa na vanguarda das experiências concretistas da época, no que se refere à prosa de ficção. Pedro Geraldo Escosteguy, numa época em que não só o direito à poesia como todos os outros direitos humanos eram fraudados com as armas da intimidação, da delação e da censura, não renuncia a seu compromisso emancipatório. Sua adesão ao slogan "O povo tem direito à poesia"[2] emerge como componente vital da personalidade do autor, que busca mobilizar a consciência crítica da população. Sua preocupação em experimentar novas formas para veicular o poema, em alargar o número de leitores de poesia e o desejo de “mexer com a passividade intelectual existente”[3], movem não só o Grupo Quixote como toda sua obra poética. O trabalho formal e a elaboração progressiva dessa criação evidenciam uma concepção de construção que resulta num universo de sentidos esquemáticos e sugestivos, fruto de um depuramento de linguagem que torna o texto sintético e reduzido a uma imagem de dados essenciais. Revela a existência presumível de um autor-escritor lado a lado a um autor-leitor, na medida em que o olhar crítico deste, frente ao texto acabado, obriga aquele a um constante trabalho de desbastamento e busca de precisão para que o resultado se enquadre em seu objetivo criativo preestabelecido. Pedro Geraldo Escosteguy, coerente com o seu projeto de impedir a desumanização da arte, absorve as inquietações do homem e as indagações sobre o seu destino, apresentando, em todos os seus textos, a elaboração de microssociedades, fortalecendo a intenção de intervenção do literário no real, uma das características do movimento Quixote. Ao tematizar o cotidiano, mas sob um enfoque sempre mais denso e complexo dos sentimentos e conflitos humanos, impregnando de introspeção emocionada esses acontecimentos mundanos e corriqueiros, exige do leitor uma visão da narrativa que vai além de um simples esvaziamento da história. Esses anticontos afirmam uma intenção de recriar, reestruturar o texto num novo modelo que fuja ao enquadramento puro e simples dos gêneros literários estudados pela crítica e pela história da literatura. São textos que postulam uma interpretação e esta será tão mais adequada quanto mais o leitor dominar um repertório capaz de lhe darem significado. O seu trabalho intriga e instiga, pois seus textos e imagens se entregam à decifração contando com a colaboração do leitor para se dar a conhecer. O leitor conhece o gênero literário conto, mas anticonto traz na sua negação um elemento que pode causar desconfiança, criando um extracampo sutil, que desperta o desejo do leitor por descobrir como o convencional será quebrado, lançando-o para além daquilo que está habituado. A palavra constitui um objeto inesperado, não mais dirigido de antemão pela intenção geral de um discurso socializado, sendo produzida e consumida pelo desejo de inovar, de experimentar diante deste objeto que promete romper o contrato tácito entre os criadores e os consumidores.
[1] BRAGANÇA, Soraya Patricia Rossi. Os Anticontos de Pedro Geraldo Escosteguy: edição crítica. Dissertação (Mestrado em Letras) – Instituto de Letras e Artes, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 1996. [2] Slogan criado por Fernando Castro para a Mostra Popular de Poesia Quixote, realizado na Praça da Alfândega, em abril de 1960, com o apoio da prefeitura Municipal de Porto Alegre e da Divisão de Cultura do Governo do Estado. [3] OSTERMANN, Rui Carlos. Mérito: quebra da calma intelectual. Correio do Povo. Porto Alegre, 28 abr. 1960.

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